O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo da América do Sul e uma das espécies mais emblemáticas do Cerrado. Por ser solitário, onívoro e conhecido como o “semeador dos campos”, desempenha um importante papel ecológico na dispersão de sementes.
Mas como essa espécie vive em paisagens cada vez mais modificadas pela atividade humana?
Na Clam, em parceria com a Vale, temos buscado responder a essa pergunta por meio do monitoramento de lobos-guará no Quadrilátero Ferrífero. Ao longo dos últimos anos, acompanhamos nove indivíduos por meio de captura, avaliação clínica, coleta de dados biométricos e instalação de colares GPS.

Portanto, mais do que conhecer os deslocamentos dos animais, nosso objetivo é compreender como os lobos vivem em meio a uma matriz antropizada e de que forma as atividades minerárias influenciam seu comportamento e uso do espaço.

E os resultados já nos trazem informações importantes
Em grande parte dos casos monitorados, os lobos utilizaram áreas de mineração como parte de suas áreas de vida. Esses locais foram utilizados tanto para descanso, especialmente nas horas mais quentes do dia, quanto para forrageamento em áreas vegetadas.
Os dados indicam que a presença da mineração, por si só, não impede necessariamente a permanência da espécie. Quando existem áreas naturais preservadas no entorno, os lobos conseguem utilizar a paisagem, estabelecer suas áreas de vida e se reproduzir. Os monitoramentos mais recentes, inclusive, já registraram evidências de reprodução.
Alguns indivíduos acompanhados também revelaram histórias singulares. Um dos lobos, por exemplo, foi frequentemente observado por trabalhadores em área minerária. Outro indivíduo apresentou travessias frequentes em rodovias, evidenciando uma das principais ameaças à espécie. Em Itabirito, dois machos adultos apresentaram sobreposição de áreas de vida e chegaram a disputar alimento, território e até armadilhas.
Mais recentemente, um macho e uma fêmea trouxeram outro registro especial. Capturados na mesma campanha, tiveram suas áreas de vida sobrepostas confirmadas pelo monitoramento. A fêmea estava em lactação e ambos frequentavam uma mesma região, possivelmente relacionada ao cuidado dos filhotes.

Cada animal monitorado acrescenta uma nova peça a esse complexo quebra-cabeça.
Conservar o lobo-guará não significa necessariamente eliminar a presença humana da paisagem, mas compreender como diferentes usos do solo podem coexistir com a espécie e, principalmente, garantir a manutenção das áreas naturais que sustentam sua sobrevivência.
Celebramos não apenas a espécie, mas também a ciência que nos permite conhecer melhor sua vida e buscar caminhos para sua conservação.
