
O monitoramento da biodiversidade por meio do DNA ambiental passa por uma transformação profunda. Nesse contexto, no qual empresas, reguladores, investidores e a sociedade demandam informações ambientais cada vez mais precisas, rastreáveis e comparáveis, cresce a necessidade de métodos capazes de aprimorar a qualidade dos dados, reduzir incertezas e embasar decisões com maior robustez técnica.
Essa transformação do uso do DNA ambiental ocorre em um momento crítico. A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos estima que cerca de um milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção em todo o mundo, muitas delas em poucas décadas (IPBES, 2019). Ao mesmo tempo, compromissos internacionais como o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal estabelecem metas para deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030, reforçando a necessidade de melhores ferramentas para o monitoramento, a gestão e o reporte ambiental (CBD, 2022).
Além disso, no setor corporativo, essa agenda deixou de ser periférica. Frameworks como a TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures) vêm consolidando recomendações para que as organizações identifiquem, avaliem e reportem riscos, impactos, dependências e oportunidades relacionados à natureza (TNFD, 2023). Até 2025, mais de 620 organizações em mais de 50 países ou jurisdições já haviam assumido publicamente o compromisso de iniciar sua jornada de reporte alinhada às recomendações da TNFD, evidenciando a importância crescente da biodiversidade e do DNA ambiental como ferramenta de monitoramento para a estratégia corporativa e financeira (TNFD, 2025).
É nesse contexto que a Clam Sustentabilidade e a NatureMetrics, líder global em inteligência da natureza, lançam uma parceria estratégica para ampliar o uso de tecnologias de DNA ambiental, ou eDNA, e de soluções de inteligência da natureza em projetos ambientais no Brasil.

O que é o DNA ambiental?
O DNA ambiental, conhecido como eDNA, é o material genético liberado pelos organismos no ambiente. Animais, plantas, fungos e microrganismos deixam continuamente vestígios biológicos na água, no solo, em sedimentos, no ar e em outros substratos. Esses vestígios podem incluir células, fragmentos de pele, muco, secreções, fezes, pólen, raízes, restos orgânicos e outras partículas biológicas.
Por meio de amostragem planejada e de análises laboratoriais de sequenciamento genético, é possível identificar a presença de espécies ou grupos biológicos em determinado ambiente, muitas vezes sem necessidade de captura, observação direta ou extenso esforço de campo. Desde os primeiros estudos que demonstraram a possibilidade de detectar espécies em ambientes aquáticos a partir de amostras de água, o eDNA consolidou-se como uma abordagem relevante para estudos de biodiversidade, ecologia, conservação e monitoramento ambiental (Ficetola et al., 2008; Taberlet et al., 2012; Bohmann et al., 2014).
Na prática, portanto, uma pequena amostra de água ou de solo pode revelar quais espécies estão presentes em todo um ecossistema, de peixes e mamíferos a fungos e microrganismos, oferecendo um panorama amplo da composição ecológica que exigiria um esforço muito maior para ser obtido apenas por levantamentos de campo convencionais. O método é particularmente valioso para detectar espécies raras, invasoras, ameaçadas ou de difícil observação, e estudos de metabarcoding de eDNA mostram que a técnica pode transformar a forma como as comunidades animais e vegetais são amostradas, sobretudo quando integrada a desenhos amostrais adequados e a bancos de dados de referência robustos (Deiner et al., 2017).
DNA ambiental: Uma tecnologia já presente no Brasil, mas que entra em uma nova fase de expansão
É importante destacar que o DNA ambiental não é uma tecnologia nova no Brasil. Há mais de uma década, universidades, grupos de pesquisa, institutos, laboratórios e empresas brasileiras vêm utilizando ou desenvolvendo aplicações de eDNA e metabarcoding em diferentes contextos, especialmente em ecossistemas aquáticos, conservação, gestão pesqueira, licenciamento ambiental e estudos de biodiversidade.
Pesquisas conduzidas no país já demonstraram o potencial do eDNA para estudos em regiões de alta biodiversidade, como a Amazônia e a Mata Atlântica, incluindo avaliações de comunidades de mamíferos e de outros grupos relevantes para a conservação (Sales et al., 2020). Estudos de grande escala também aplicaram o eDNA no Brasil para avaliar a biodiversidade marinha e estuarina, demonstrando a capacidade da técnica de gerar informações relevantes em diferentes contextos ambientais (Lines et al., 2023).
Portanto, o que muda agora não é a introdução da tecnologia no país, mas sua expansão em escala, integração, padronização e sofisticação analítica.
A partir dessa evolução, o eDNA deixa de ser apenas uma ferramenta molecular aplicada a estudos isolados e passa a integrar uma abordagem mais ampla de inteligência ambiental: com protocolos padronizados, rastreabilidade, bancos de dados, análises comparáveis ao longo do tempo, indicadores de biodiversidade, integração com modelagem, sensoriamento remoto e plataformas digitais de apoio à decisão.
A parceria entre a Clam and the NatureMetrics existe para acelerar exatamente essa transição, implementar essas tecnologias em escala, com a qualidade técnica e a capacidade operacional que o licenciamento ambiental, a gestão de riscos ESG, o reporte e o monitoramento corporativo de biodiversidade hoje exigem.
O que a NatureMetrics traz para a parceria
Nesse cenário de transformação do monitoramento ambiental, a NatureMetrics é líder global em inteligência da natureza, com uma década de experiência comercial em eDNA, entregando monitoramento de biodiversidade em escala de paisagem para empresas e governos em todo o mundo. A empresa se posiciona como uma plataforma capaz de transformar dados de biodiversidade em informações úteis para empresas, governos e organizações que precisam compreender seus impactos, riscos e oportunidades relacionados à natureza.
Além dessa atuação, nos últimos anos, a NatureMetrics foi além da prestação de serviços laboratoriais de eDNA. A empresa desenvolveu soluções voltadas à gestão de dados de biodiversidade, ao reporte corporativo, à avaliação de riscos relacionados à natureza e ao apoio a compromissos de sustentabilidade.
Em 2023, anunciou uma plataforma de Inteligência da Natureza baseada em eDNA, com o objetivo de converter a complexidade dos dados ecológicos em informações acionáveis para as equipes corporativas de sustentabilidade (NatureMetrics, 2023).
Esse conjunto de capacidades é especialmente relevante para grandes empresas de setores como mineração, energia, infraestrutura, logística, portos, óleo e gás, saneamento e agronegócio, que precisam monitorar ambientes complexos em diferentes escalas espaciais e temporais e transformar dados ambientais em decisões gerenciais.

“A demanda por dados de biodiversidade de alta qualidade está crescendo rapidamente no Brasil, e esta parceria representa um marco importante para ajudar as organizações a responder a requisitos regulatórios em evolução e às expectativas dos investidores. Embora nossas raízes estejam no Reino Unido, a NatureMetrics sempre teve como foco entregar inteligência da natureza em escala global. Ao firmar parceria com a Clam, fortalecemos nossa presença no Brasil e asseguramos que as organizações tenham acesso às informações de biodiversidade de que precisam para tomar decisões fundamentadas, tanto para os negócios quanto para a natureza.” — Pippa Howard, Chief Nature Strategist, NatureMetrics
O papel da Clam na parceria
A Clam entra nesta parceria com um papel complementar e estratégico: conhecimento do território brasileiro, capacidade operacional, experiência em licenciamento ambiental, atuação em projetos de grande escala e presença técnica em diferentes biomas e setores produtivos.

Com cerca de mil colaboradores e atuação em âmbito nacional, a Clam tem forte presença nos setores de mineração, energia, logística, rodovias, portos e infraestrutura. A empresa atua em estudos ambientais, monitoramento de fauna e flora, gestão de programas ambientais, diagnósticos de biodiversidade, atendimento a condicionantes ambientais, licenciamento e suporte técnico a projetos de alta complexidade.

Essa experiência é essencial porque a aplicação bem-sucedida do eDNA não depende apenas da tecnologia laboratorial. Ela exige desenho amostral adequado, compreensão ecológica do sistema, definição clara das questões técnicas, logística de campo, controle de qualidade, rastreabilidade das amostras, integração com métodos convencionais e interpretação ambiental dos resultados. Em outras palavras, o valor do eDNA não está apenas em identificar sequências genéticas. Está em transformar essas sequências em informações ambientais confiáveis, úteis e defensáveis para a tomada de decisão.
Aplicações estratégicas do DNA ambiental no Brasil
A parceria entre a Clam e a NatureMetrics tem potencial para gerar valor em diferentes áreas de atuação no Brasil. Na mineração, o eDNA pode apoiar estudos de linha de base, o monitoramento de fauna aquática e terrestre, a avaliação de áreas de influência, o monitoramento da recuperação ambiental, a análise de ambientes cavernícolas, o monitoramento de áreas sensíveis e o atendimento a condicionantes do licenciamento.
Na infraestrutura, pode contribuir para diagnósticos mais rápidos e padronizados em projetos de rodovias, ferrovias, portos, linhas de transmissão, barragens, hidrelétricas e infraestrutura linear, nos quais a escala espacial representa um desafio significativo para os métodos tradicionais.
Em recursos hídricos, o eDNA pode ser usado para monitorar comunidades aquáticas, ictiofauna, macroinvertebrados, microrganismos, espécies invasoras, espécies ameaçadas e indicadores ecológicos associados à qualidade ambiental.
Em cavernas, a aplicação é particularmente promissora. Ambientes cavernícolas são sensíveis, muitas vezes frágeis, e podem abrigar espécies raras, endêmicas ou de difícil detecção. A entrada repetida de equipes em cavernas pode aumentar os riscos operacionais e gerar interferência no ambiente. O uso do eDNA, quando adequadamente planejado, pode reduzir a necessidade de presença humana intensiva, aumentar a segurança das equipes e gerar uma base de dados adicional para avaliar a biodiversidade subterrânea e seu entorno.
Em programas de restauração e recuperação ambiental, o eDNA pode apoiar o monitoramento das respostas da biodiversidade ao longo do tempo, permitindo avaliar se determinadas áreas estão recuperando complexidade ecológica, conectividade ou a presença de grupos funcionais relevantes.
Um complemento, não uma substituição automática
Apesar de seu enorme potencial, o DNA ambiental não deve ser tratado como um substituto isolado de todos os métodos convencionais. Essa distinção é importante para garantir o uso responsável da tecnologia. O eDNA é uma ferramenta poderosa, sensível e escalável, mas seus resultados dependem de fatores como o desenho amostral, o tipo de ambiente, a degradação do DNA, o transporte do material genético, a qualidade dos bancos de dados de referência, os protocolos laboratoriais, a escolha dos marcadores genéticos e os critérios de interpretação (Bohmann et al., 2014; Deiner et al., 2017).
Por essa razão, a abordagem mais robusta é integrar o eDNA a métodos de campo tradicionais, à modelagem ecológica, a dados históricos, ao conhecimento taxonômico, ao sensoriamento remoto e a análises espaciais. Em alguns contextos, o eDNA pode ampliar enormemente a capacidade de detecção. Em outros, pode funcionar como ferramenta de triagem, complemento, linha adicional de evidência ou instrumento de monitoramento temporal.
Esse equilíbrio entre inovação e rigor técnico é central no trabalho conjunto da Clam e da NatureMetrics.
Da coleta de dados à inteligência ambiental
Um dos principais desafios do mercado ambiental não é apenas coletar mais dados, mas transformar dados em inteligência. Grandes projetos ambientais produzem volumes crescentes de informação: listas de espécies, registros georreferenciados, imagens, sons, amostras laboratoriais, dados moleculares, indicadores físico-químicos, camadas de uso do solo, modelos de habitat, mapas de risco e relatórios técnicos.
Sem integração, esses dados podem permanecer fragmentados. Com a integração adequada, podem embasar decisões mais estratégicas: onde monitorar, onde restaurar, onde evitar impactos, onde priorizar compensações, quais áreas são mais sensíveis, quais indicadores estão melhorando ou piorando e quais riscos precisam ser reportados à alta administração.
É aqui que a parceria se torna especialmente relevante. A NatureMetrics traz uma década de experiência internacional em eDNA, plataformas digitais, indicadores e inteligência de biodiversidade. A Clam traz conhecimento local, capacidade de campo, experiência regulatória, diálogo com clientes e compreensão dos desafios práticos de implementação no Brasil.
Essa combinação pode ajudar as empresas a migrar de uma lógica de monitoramento descritivo para uma lógica de inteligência ambiental aplicada.
Biodiversidade, ESG e licenciamento ambiental
A biodiversidade está se tornando uma dimensão cada vez mais estratégica da agenda ESG. Por muitos anos, o debate ambiental corporativo concentrou-se fortemente em carbono, energia, resíduos e clima. Essas questões permanecem fundamentais, mas a agenda da natureza vem ganhando força, sobretudo pela compreensão de que mudanças climáticas, perda de biodiversidade, segurança hídrica, uso do solo e serviços ecossistêmicos estão profundamente interligados.
Essa mudança se reflete em compromissos internacionais como o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e em frameworks de reporte corporativo como a TNFD, que buscam aproximar biodiversidade, natureza, risco financeiro, governança e estratégia de negócios (CBD, 2022; TNFD, 2023).
Para empresas que operam em áreas sensíveis, como mineração, energia, infraestrutura e logística, essa agenda tem implicações diretas: licenciamento ambiental, relacionamento com comunidades, segurança jurídica, reputação, acesso a capital, conformidade regulatória, compromissos voluntários e reporte a investidores.
Nesse cenário, métodos como o eDNA podem contribuir para gerar dados mais padronizados, rastreáveis e comparáveis. Isso é essencial para responder a perguntas cada vez mais frequentes: qual é a condição ecológica de uma área antes da implantação de um projeto? Como a biodiversidade muda ao longo do tempo? Quais espécies estão presentes? Há sinais de recuperação? Existe risco de perda de espécies sensíveis? As ações de mitigação e compensação estão funcionando?
Responder a essas perguntas exige ciência, tecnologia, escala operacional e interpretação ambiental. É precisamente nessa interseção que a parceria entre a Clam e a NatureMetrics se posiciona.
Um passo rumo a mais qualidade, escala e inovação
A parceria entre a Clam e a NatureMetrics não deve ser entendida como a introdução de uma tecnologia inédita no Brasil. O DNA ambiental já é utilizado no país, inclusive por instituições acadêmicas, empresas nacionais e projetos ambientais em diferentes regiões.
O que a parceria representa é um novo passo na maturidade da aplicação dessa tecnologia: mais escala, mais padronização, mais integração analítica e maior capacidade de transformar dados genéticos em informações úteis para o licenciamento, a gestão ambiental e a estratégia ESG.
Ao combinar a década de expertise global da NatureMetrics em eDNA e sua Plataforma de Inteligência da Natureza com a presença técnica e operacional da Clam no Brasil, a parceria tem potencial para tornar as soluções avançadas de monitoramento de biodiversidade mais acessíveis, aplicáveis e adaptadas à realidade brasileira.
Em um país megadiverso, com grandes desafios de conservação e desenvolvimento, essa integração entre ciência, tecnologia e execução local pode contribuir para uma nova geração de estudos ambientais: mais seguros, mais eficientes, menos invasivos e mais orientados à decisão. O futuro do monitoramento ambiental não se baseará em uma única ferramenta. Será construído pela integração de métodos tradicionais, novas tecnologias, dados de campo, modelagem, inteligência artificial, sensoriamento remoto, conhecimento ecológico e capacidade de implementação. A parceria entre a Clam e a NatureMetrics insere-se exatamente nesse movimento: transformar a biodiversidade em informação estratégica para apoiar melhores decisões, reduzir riscos e fortalecer a gestão ambiental no Brasil.
Bohmann, K., Evans, A., Gilbert, M. T. P., Carvalho, G. R., Creer, S., Knapp, M., Yu, D. W., & de Bruyn, M. (2014). Environmental DNA for wildlife biology and biodiversity monitoring. Trends in Ecology & Evolution, 29(6), 358–367. https://doi.org/10.1016/j.tree.2014.04.003
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Deiner, K., Bik, H. M., Mächler, E., Seymour, M., Lacoursière-Roussel, A., Altermatt, F., Creer, S., Bista, I., Lodge, D. M., de Vere, N., Pfrender, M. E., & Bernatchez, L. (2017). Environmental DNA metabarcoding: Transforming how we survey animal and plant communities. Molecular Ecology, 26(21), 5872–5895. https://doi.org/10.1111/mec.14350
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Lines, R., Juggernauth, M., Peverley, G., Keating, J., Simpson, T., Mousavi-Derazmahalleh, M., Bunce, M., Berry, T. E., Taysom, A., Bernardino, A. F., & Whittle, P. (2023). A large scale temporal and spatial environmental DNA biodiversity survey of marine vertebrates in Brazil following the Fundão tailings dam failure. Marine Environmental Research, 192, 106239. https://doi.org/10.1016/j.marenvres.2023.106239
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Sales, N. G., Kaizer, M. C., Coscia, I., Perkins, J. C., Highlands, A., Boubli, J. P., Magnusson, W. E., da Silva, M. N. F., Benvenuto, C., & McDevitt, A. D. (2020). Assessing the potential of environmental DNA metabarcoding for monitoring Neotropical mammals: A case study in the Amazon and Atlantic forests, Brazil. Mammal Review, 50(3), 221–225. https://doi.org/10.1111/mam.12183
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