É tudo rato? Diversidade e estudo dos Pequenos Mamíferos

Autor: Lucas Otávio Vasconcelos Soares
Analista Ambiental − Meio Biótico

Ao pensar nos mamíferos silvestres brasileiros, qual animal vem à mente primeiro? As respostas mais prováveis seriam o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), imponente representante do Cerrado e da nossa nota de R$200,00, ou até mesmo a onça-pintada (Panthera onca), majestoso exemplar da fauna brasileira, maior carnívoro terrestre da América do Sul e maior felídeo das américas. Mas a fauna brasileira abriga a maior diversidade de mamíferos do mundo, indo muito além dos nossos grandes exemplares, com 785 espécies descritas até o momento. Dessa grande variedade de formas, tamanhos e comportamentos, aproximadamente 44% das espécies são pequenos mamíferos não voadores, que não pesam mais que 1 kg.

Quem são os pequenos mamíferos?

Roedores e marsupiais, estes são os representantes dessa grande variedade de espécies. Os marsupiais pertencem à Ordem Didelphimorphia, animais de pequeno a médio porte, geralmente dotados de cauda preênsil e marsúpio (uma espécie de “bolsa”, localizada no abdômen das fêmeas, onde os filhotes completam seu desenvolvimento), como os gambás e cuícas, de dieta predominantemente onívora. Os roedores são os animais pertencentes à Ordem Rodentia, caracterizados pela presença de um único par de incisivos superiores, crescimento contínuo desses dentes e ausência de caninos. Os mamíferos mais numerosos do Brasil pertencem à Ordem Rodentia, e estes são os ratos, ouriços e capivaras, embora os dois últimos não sejam considerados pequenos mamíferos, mas sim, médios e grandes, respectivamente.

A grande diversidade não é a única característica marcante dos pequenos mamíferos, já que os roedores e marsupiais exercem influência nas florestas neotropicais através da predação de sementes e plântulas, e da dispersão de fungos micorrízicos que contribuem positivamente para a sobrevivência de mudas de árvores. Além disso, esse grupo é um excelente bioindicador de alterações no hábitat e na paisagem, já que possui espécies com alta especificidade no uso de micro-habitats e diversos hábitos, como terrestres, arborícolas, escansoriais (utilizam os dois estratos), semiaquáticas e semi-fossoriais.

O desafio na amostragem dos pequenos mamíferos

A grande variedade de hábitos torna o estudo dos pequenos mamíferos um grande desafio, afinal, é preciso utilizar metodologias de amostragem eficientes para os animais arborícolas, os terrestres, os escansoriais, os semi-fossoriais e, inclusive, os semiaquáticos. Felizmente, a comunidade científica já resolveu esse problema, e nas últimas décadas ficou claro que a riqueza e abundância de pequenos mamíferos são estimadas com mais precisão quando são utilizadas mais de um tipo de armadilha nos estudos. As mais utilizadas são as armadilhas de gaiola, Tomahawks e Shermans, além da armadilha de interceptação e queda, conhecida como PitFall, sendo esta, a mais eficiente na amostragem de pequenos mamíferos.

Como funciona cada armadilha?

As armadilhas de gaiola necessitam de iscas atrativas para capturar as espécies alvo, que entram na gaiola em busca de comida e acionam o mecanismo de fechamento da armadilha. A isca geralmente é composta por um macerado atrativo aos mais diversos hábitos alimentares, com ingredientes como banana, sardinha, aveia, além de amendoim torrado e moído, podendo haver variações a depender do profissional e das espécies alvo do estudo. Já o PitFall geralmente não utiliza isca atrativa, mas intercepta qualquer animal que esteja forrageando a área de estudo, podendo capturar, inclusive, mais de um indivíduo em um mesmo balde.

Com as armadilhas de gaiola, o pesquisador pode selecionar os locais mais promissores para cada um dos hábitos das espécies alvo, escolhendo onde alocá-las da forma mais eficiente em um transecto previamente definido, com estações amostrais equidistantes. Instalando as gaiolas de modelo Sherman no chão ou em galhos de árvore, o pesquisador objetiva a captura dos animais de hábito arborícola, terrestre e/ou escansorial. As gaiolas de modelo Tomahawk sãoser instaladas no chão ou próximo à água, objetivando a captura dos animais de hábito semiaquático, terrestre e/ou escansorial. Já o PitFall, composto por baldes enterrados na altura do solo, ligados por uma lona guia, intercepta o caminho do animal e o conduz até o recipiente, podendo capturar animais de todos os hábitos, inclusive o semi-fossorial.

E o que fazer quando eles são capturados?

Durante o campo, os profissionais envolvidos no estudo conferem todas as armadilhas diariamente e, em casos de captura, os espécimes são submetidos à coleta de dados biométricos e biológicos, incluindo peso, sexo, condição reprodutiva, classe etária e medidas corporais padronizadas, como comprimento cabeça-corpo, cauda, orelha e pata posterior. Esses dados são utilizados in loco, ou posteriormente, para identificação da espécie e análise das condições dos indivíduos e da população como um todo. Por fim, o animal é marcado na orelha com brincos numerados, o que permite o reconhecimento dos indivíduos em eventos futuros de recaptura, subsidiando análises populacionais posteriores, e em seguida, são soltos no mesmo local.

Muito massa, mas qual a importância do estudo dos pequenos mamíferos?

Os dados coletados em campo são compilados e, em seguida, passam por uma série de análises estatísticas que respondem perguntas sobre as áreas estudadas, metodologias empregadas, riqueza e abundância das espécies ao longo dos anos de monitoramento e sobre o funcionamento do próprio empreendimento onde o estudo foi conduzido. As principais análises estatísticas envolvem:

  • Similaridade, que compara as áreas afetadas pelo empreendimento e as áreas controle, indicando o quão parecidas as comunidades de pequenos mamíferos de cada uma são;
  • Diversidade e Equitabilidade, que respondem se existe homogeneidade de espécies, ou se alguma delas domina o ambiente;
  • Suficiência Amostral, que responde o quão perto o estudo está de registrar todas as espécies da área estudada.

O Papel Ecológico e a Conservação

Essas análises subsidiam as discussões relacionadas ao impacto do empreendimento sobre a comunidade de pequenos mamíferos e quais medidas devem ser tomadas para conservar esses animais. Esse debate é de suma importância, ao passo que estas espécies apresentam funções ecológicas extremamente relevantes para o ambiente onde vivem, como o consumo de invertebrados, frutos e sementes, influenciando o controle de populações de invertebrados, predação e dispersão de sementes, com reflexos diretos sobre a estrutura e a dinâmica da vegetação. Conforme citado anteriormente, os pequenos mamíferos não voadores também se mostram bons bioindicadores de alterações locais no habitat e na paisagem.

Relevância Epidemiológica e Saúde Pública

O monitoramento contínuo desse táxon também se mostra essencial do ponto de vista da saúde ambiental, já que diversas espécies possuem reconhecida relevância epidemiológica, atuando como reservatórios de doenças infecciosas ao ser humano. Zoonoses, como o hantavírus e as bactérias relacionadas à febre maculosa, são associadas principalmente ao rato-do-mato (Necromys lasiurus), atuando, respectivamente, como hospedeiro e reservatório de cada uma delas. Além disso, o rato-d’água (Nectomys squamipes)é considerada uma das espécies silvestres mais importantes na manutenção da esquistossomose em áreas endêmicas, sendo frequentemente encontrada infectada em condições naturais. Além dos dois exemplos estas zoonoses se relacionam com outras espécies de pequenos mamíferos não voadores, o que evidencia a importância do estudo contínuo e levantamento de dados de suas populações, para subsidiar ações de controle dessas doenças infectocontagiosas.

Conclusão

Dessa forma, os pequenos mamíferos não voadores trazem um reflexo da saúde ambiental do empreendimento sendo uma das ferramentas disponíveis para o gerenciamento sustentável de suas atividades, uma vez que permite a identificação de impactos e suas consequências ao ambiente. Seu estudo, apesar de trabalhoso, é de suma importância para avaliar, inclusive, a saúde do ambiente e a resposta das espécies aos crescentes impactos ambientais. Para isso, a Clam conta com uma equipe altamente especializada, equipamentos de monitoramento e softwares modernos que possibilitam análises essenciais à orientação de ações de conservação e ao licenciamento ambiental do empreendimento.

Ao pensar nos mamíferos silvestres brasileiros, o primeiro animal que vem à mente pode não ser roedor ou marsupial. Porém, ter em mente seu trabalho ecológico altamente especializado, sua relevância epidemiológica e até mesmo o quão “bonitinhos” eles são (é claro que essa importante característica não poderia ficar de fora), é fundamental para a conservação do meio ambiente e seus recursos naturais!

Guerlinguetus brasiliensis -Esquilo, espécie nativa.

Autor

Saiba mais sobre a a diversidade, estudo e importância ecológica dos pequenos mamíferos silvestres brasileiros.

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