“Viajantes que conectam continentes e revelam a saúde dos ecossistemas”
O que são as aves limícolas?
Você já reparou aquelas aves pequenas de coloração cinza, as vezes brancas que ficam na beira da praia, lagoas e em costões rochosos? Provavelmente não, por serem pouco chamativas e não despertarem o interesse das pessoas, muitas dessas espécies são chamadas de aves limícolas migratórias..
Aves limícolas migratórias vivem associadas às margens de ambientes aquáticos, como em lagoas, locais com lama, areia úmida ou águas rasas e nas margens da areia de praias. Por sua vez, o termo limícola está associado à palavra em latim limus, que significa limo, lodo ou lama. Além disso, geralmente essas aves possuem pernas alongadas e bicos finos e adaptados para procurar pequenos organismos no solo, como insetos, crustáceos e moluscos (ICMBio, 2022; SAVE Brasil, 2026). No Brasil, ocorrem 54 espécies, 12 são residentes, 4 são migrantes do Cone Sul e 38 são migrantes do Hemisfério Norte (SAVE Brasil, 2026).
Entre essas espécies, destacam-se os maçaricos, as batuíras e o conhecido quero-quero. O quero-quero (Vanellus chilensis) é considerada uma ave limícola porque possui hábitos de forrageamento no solo e costuma viver em áreas alagadas, banhados e margens de corpos d’água (Sick, 1997). Além disso, essas aves são conhecidas por capturar pequenos invertebrados na lama e em águas rasas. Além disso, embora seja comum em campos abertos e pastagens secas, seu ambiente natural e de reprodução está frequentemente associado a áreas úmidas e margens de lagoas (Sick, 1997).

Pontos estratégicos de parada das aves no Brasil
Além disso, durante suas longas migrações, as aves limícolas utilizam áreas estratégicas para descanso e alimentação, onde recuperam energia para continuar a viagem. Nesse contexto, no Brasil, destacam-se três regiões principais:
Costa Norte (Amapá, Pará e Maranhão), que abriga extensas áreas de manguezais, estuários e planícies de maré, consideradas algumas das mais importantes áreas de alimentação para aves migratórias na América do Sul.
Além da Costa Norte, o Litoral Nordeste, composta por estuários, lagoas costeiras e salinas, que funcionam como pontos de parada durante os deslocamentos migratórios.
Já no Sul, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, reconhecido internacionalmente como um dos principais locais de permanência e alimentação de aves limícolas durante o período não reprodutivo.
No Sudeste, por sua vez, o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e suas lagoas costeiras e áreas úmidas servem de abrigo e alimentação para diversas espécies migratórias.
Complexo Estuarino de Cananéia-Iguape-Paranaguá, um dos mais importantes sistemas estuarinos do país, oferecendo extensos bancos de lama e áreas de alimentação.
Da mesma forma, a Baía de Guanabara, que apesar das pressões antrópicas, ainda abriga áreas utilizadas por espécies migratórias em determinados períodos do ano.
Além disso, a Lagoa de Araruama e outras lagunas costeiras fluminenses, funcionam como áreas de repouso e alimentação para algumas espécies.
De forma geral, os estuários, lagunas costeiras, praias arenosas e áreas de manguezal do Sudeste atuam como pontos intermediários de parada.
Principais áreas de ocorrência das aves limícolas no Brasil
De forma geral, podemos dividir as aves limícolas em dois grupos: espécies residentes, ou seja, aquelas que não realizam grandes migrações e se reproduzem aqui no Brasil, e as migratórias, aves que voam milhares de quilômetros, ao longo de suas vidas, entre suas áreas de reprodução e áreas de invernada, nos Hemisfério Norte e Sul. Por exemplo, dentre as residentes, o pernilongo-de-costas-brancas (Himantopus melanurus), é uma espécie considerada residente em boa parte do Brasil, incluindo o Estado de Minas Gerais.



A incrível jornada das aves limícolas migratórias
As aves limícolas migratórias são viajantes impressionantes da natureza. Todos os anos, milhares dessas aves percorrem enormes distâncias entre regiões frias do hemisfério norte e áreas mais quentes da América do Sul, incluindo o Brasil, entre os meses de setembro a abril (ICMbio, 2022). Durante essa jornada, elas utilizam praias, manguezais, lagoas, estuários e áreas úmidas como locais de descanso e alimentação. Assim, essa rede de ambientes é essencial para garantir o sucesso da migração e a sobrevivência das populações ao longo de todo o ciclo anual (Myers et al., 1987).
Curiosidades das aves limícolas migratórias

Adaptações para longas migrações
As condições ambientais nessas áreas são essenciais para a continuidade dessas viagens, que podem superar 32.000 km por ano (Piersma; Baker, 2000; ICMBio, 2022). Além disso, a oferta e qualidade do alimento disponível em cada um dos locais tem que ser alta para que as aves acumulem energia para voar durante longos períodos (Myers et al., 1987; Piersma &Lindström, 2004). Antes da migração, muitas aves praticamente dobram de peso acumulando gordura corporal. Essa reserva funciona como “combustível” para os voos longos. Maçaricos e batuíras chegam a voar de 5 a 11 dias sem parar, como o maçarico-de-bico-torto e maçarico-do-bico-virado. Além disso, há registros de espécies que permanecem voando por vários dias seguidos sobre o oceano, aproveitando correntes de vento e reduzindo ao máximo o gasto de energia (GILL et al., 2009; Piersma & Lindström, 2004).
Mudança de plumagem ao longo do ciclo reprodutivo
Uma das características mais fascinantes das aves limícolas migratórias é a mudança de plumagem ao longo do seu ciclo anual. Essas alterações estão diretamente relacionadas ao ciclo reprodutivo, à migração e às necessidades de sobrevivência nos diferentes ambientes.
Durante o período reprodutivo, que geralmente ocorre nas regiões árticas do Hemisfério Norte, muitas espécies desenvolvem uma plumagem mais “elegante”, com cores mais intensas e com padrões marcantes. Essa plumagem tem importante função na atração de parceiros e na comunicação entre indivíduos da mesma espécie. O maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) , por exemplo, apresenta uma coloração avermelhada intensa no peito e na face com pequenas manchas no dorso durante o período de reprodução.


Mudança de plumagem ao longo da migração
Após a reprodução, as aves passam pelo processo de muda, no qual substituem gradualmente suas penas. Com isso, adquirem uma plumagem não reprodutiva, geralmente mais discreta, composta por tons acinzentados, marrons ou esbranquiçados. Essa coloração proporciona melhor camuflagem nas áreas de alimentação e descanso utilizadas durante a migração e o período de invernada, incluindo as zonas costeiras brasileiras.
Como as aves limícolas migratórias sabem para onde ir?
Elas não têm mapas, mas possuem um “GPS interno” incrível, guiado por pistas naturais como estrelas, rios e até o campo magnético da Terra. Para percorrer grandes distâncias que chegam a dezenas de milhares de quilômetros, elas utilizam os seguintes mecanismos:
- Magnetorrecepção (Bússola Magnética): Possuem uma proteína nos olhos (chamada criptocromo) sensível à luz, isso lhes permite literalmente “ver” as linhas do campo magnético da Terra, indicando onde ficam o norte e o sul.
- Posição dos Astros: Em primeiro lugar, orientam-se pela posição do Sol durante o dia e utilizam o padrão das estrelas para manter a direção exata quando viajam à noite.
- Memória Visual e Olfativa: Identificam acidentes geográficos de grande escala, como linhas de costa, cadeias de montanhas e rios. Além disso, o olfato apurado auxilia na localização de áreas úmidas e estuários.
O papel das bandeirolas no rastreamento
Marcação de Aves Migratórias
Além disso, o método de marcação com bandeirolas é bastante interessante por não exigir recaptura da ave para sua visualização, evitando o stress em ser capturada por uma segunda vez. Dessa forma, Os pesquisadores fazem os registros geralmente por luneta, binóculo ou fotografia por qualquer pessoa/voluntário que consiga registrar a cor e o código da bandeirola durante alguma expedição nas áreas de ocorrência das aves limícolas. Assim, os dados obtidos são de extrema importância ecológica para estas espécies, trazendo informações sobre as rotas migratórias dos indivíduos e populações, contribuindo para a sua conservação. Cada bandeirola possui uma cor indicando o país de origem em que foi capturada, quando são registradas, o Brasil, por exemplo, é representado pela cor azul escuro.




Atuação da Clam no monitoramento de aves em Centrais Eólicas e Linhas de Transmissão da CEMIG no Ceará
Linha de Transmissão (LT) Parajuru – Beberibe de 69 Kv
Nesse contexto, o objetivo deste estudo foi avaliar se havia interferência significativa da linha de transmissão sobre a avifauna residente e migratória, incluindo as aves limícolas, a fim de subsidiar a necessidade ou não de implementar um sistema adequado de sinalização aérea.
Além disso, entre as aves limícolas migratórias ocorrentes, existem espécies em grande risco de extinção, devido à perda de habitat ao longo de suas rotas de migração. Impactos adicionais advindos da geração de energia podem, potencialmente, gerar efeitos catastróficos em populações deste grupo, notadamente nas áreas de maior agregação ao redor do mundo (Melville et al., 2016).
Por fim, ao final das campanhas de monitoramento, A equipe registrou 173 espécies de aves na área do empreendimento, sendo 15 espécies de aves limícolas migratórias. Consequentemente, constatou-se que existe uma baixa probabilidade de ocorrência de acidentes com as aves, tanto residentes como migratórias, uma vez que não foram encontradas carcaças nas buscas realizadas e não houve casos de curto ou desligamento na rede ocasionado por eletrocussão em aves, segundo relatos da equipe técnica da subestação local.
Avaliando os impactos na fauna em empreendimentos energéticos
Central Eólica de Volta do Rio
O monitoramento da avifauna e quiropterofauna (fauna alada) da Central Eólica Volta do Rio, foi realizado através de metodologias qualitativas e quantitativas a fim de investigar e identificar a composição das comunidades de aves e morcegos que ocorrem na área do empreendimento. Além disso, foram avaliadas as taxas de mortalidade decorrentes do funcionamento dos aerogeradores, com o objetivo de verificar a necessidade de instalar sinalizadores aéreos.
Além disso, as turbinas de vento para geração de energia eólica representam, também uma grande ameaça para as populações de morcegos e aves. Dessa forma, entender como ocorre a interação da avifauna e morcegos em relação às estruturas presentes nos parques eólicos, auxilia na mitigação e tomadas de decisão sobre o impacto para fauna em consequência das atividades geradoras de energia utilizadas através das torres eólicas.
Ao longo das campanhas de monitoramento, foram registradas 76 espécies de aves, sendo 16 espécies de aves limícolas e não foram observadas utilizando estruturas do parque ou mesmo próximos aos aerogeradores, com exceção do quero-quero (Vanellus chilensis) e da batuíra-de-bando (Charadrius semipalmatus). Além disso, não foram encontradas carcaças de aves próximas aos aerogeradores.
Usina Hidrelétrica de Queimado
Do mesmo modo, durante os monitoramentos de fauna realizados na Usina Hidrelétrica de Queimado, algumas espécies já foram registradas durante os níveis baixos do reservatório, o qual se torna um local ideal para alimentação e repouso para essas espécies. Como por exemplo, o pernilongo-de-costas-brancas (Himantopus melanurus), maçarico-solitário (Tringa solitaria) e o maçarico-de-perna-amarela (Tringa flavipes).
Conservação das Aves Limícolas no Brasil
Nesse contexto, o Brasil possui grande importância para as aves migratórias, especialmente em áreas costeiras do Norte e Nordeste, que funcionam como pontos estratégicos de parada e sobrevivência durante a migração, entretanto essas espécies migram por praticamente toda costa brasileira, com locais estratégicos no sul e sudeste. Além disso, muitos indivíduos chegam ao país após voos de milhares de quilômetros, vindos de locais como Canadá, Estados Unidos e região do Ártico.
Plano de Ação Nacional e novas ferramentas de conservação
Além de sua beleza e importância ecológica, as aves limícolas são consideradas indicadoras da qualidade ambiental. A presença dessas espécies geralmente demonstra que os ambientes aquáticos ainda mantêm boas condições de conservação. Por outro lado, a degradação de praias, manguezais e áreas úmidas pode comprometer diretamente a sobrevivência dessas aves, reduzindo locais de alimentação e descanso essenciais durante a migração. Muitas espécies já apresentam declínio populacional, há inclusive um Plano Nacional para a Conservação das Aves Limícolas Migratórias (PAN Aves Limícolas).
Nesse sentido, o PAN tem o objetivo de ampliar e assegurar a conservação das aves limícolas e seus habitats no Brasil, promovendo a cooperação entre a sociedade civil, poder público e setor produtivo. Além disso, as aves limícolas sofreram acentuado declínio desde 1970 nas Américas, pois são dependentes de habitats nas diferentes áreas geográficas de sua distribuição, para os seus processos fisiológicos e sua migração.
Por isso, a conservação desses ambientes é fundamental para garantir que as rotas migratórias continuem funcionando. A proteção de áreas costeiras, o controle da poluição e a redução de impactos humanos contribuem para que essas aves continuem realizando um dos fenômenos naturais mais extraordinários do planeta: a migração de longa distância.
Lançamento do Atlas de Aves Migratórias
Portanto, no dia 27/03/2026, foi lançado o Atlas online que mostra rotas migratórias de aves vulneráveis:
“Uma ferramenta que mapeia rotas de migração, locais de parada e repouso mais importantes para 89 espécies de aves migratórias das Américas foi lançada na programação da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em Campo Grande”
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-03/atlas-lancado-na-cop15-mostra-rotas-migratorias-de-aves-vulneraveis.
Importância do Atlas para o Licenciamento Ambiental
Dessa forma, com esse, Atlas, será possível definir melhor as áreas geográficas que precisam de mais atenção para conservação. As áreas de concentração de aves podem ser visualizadas em um mapa interativo que demonstra, por espécie, a trajetória percorrida em cada época do ano. Além disso, o processo de licenciamento ambiental para os empreendimentos de geração de energia com linhas de transmissão e torres eólicas serão beneficiados com as informações disponibilizadas pela ferramenta. Assim, será mais fácil a escolha dos locais para a construção desses empreendimentos, visto que estes podem resultar na mortalidade de aves e de morcegos.
Link: https://www.cms.int/atlas-americas-flyways
REFERÊNCIAS
- MELVILLE, D.S., Chen, Y., Ma, Z. 2016. Shorebirds along the Yellow Sea coast of China face an uncertain future — a review of threats. Emu 116(2): 100–110. https://doi.org/ 10.1071/MU15045.
- GILL, R.E; TIBBITTS, T.L, DOUGLAS, DC, HANDEL, CM, MULCAHY, DM, GOTTSCHALCK, JC, & PIERSMA, T. Extreme endurance flights by landbirds crossing the Pacific Ocean: ecological corridor rather than barrier? Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, London, v. 276, n. 1656, p. 447-457, 2009.
- INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICMBio). Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias: Sumário Executivo do 2º Ciclo (2019–2024). Brasília: ICMBio/CEMAVE, 2022.
- MYERS, John P.; MORRISON, R. I. Guy; ANTAS, Paulo de Tarso Zuquim; HARRINGTON, Brian A.; LOVEJOY, Thomas E.; SALLABERRY, Manuel; SENNER, Stanley E.; TARAK, Albert.Conservation strategy for migratory species. American Scientist, v. 75, n. 1, p. 19-26, 1987.
- NEWTON, Ian. The migration ecology of birds. London: Academic Press, 2008.
- PIERSMA, Theunis; BAKER, Allan J. Life history characteristics and the conservation of migratory shorebirds. In: GOSLING, L. M.; SUTHERLAND, W. J. (ed.). Behaviour and Conservation. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. p. 105-124.
- PIERSMA, Theunis; LINDSTRÖM, Åke. Migrating shorebirds as integrative sentinels of global environmental change. Ibis, v. 146, n. 1, p. 61-69, 2004.
- SAVE BRASIL. Aves Limícolas. São Paulo: SAVE Brasil, [s.d.]. Disponível em: SAVE Brasil – Aves Limícolas. Acesso em: 20 de maio. 2026.
- SICK, Helmut. Ornitologia brasileira. Edição revista e ampliada por José Fernando Pacheco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 862 p.